A metáfora da afinação traz uma importante reflexão sobre nossas demandas psíquicas. Para quem toca um instrumento de corda, ou tem um conhecimento básico de música, a metáfora vai trazer um paralelo sobre nossas dificuldades enquanto sujeitos nas relações afetivas. A durabilidade das cordas do violão, no geral, é bem boa, e pode chegar a durar anos. Quando colocamos as cordas novas no violão elas ainda estão se ajustando ao instrumento, as cordas tem a necessidade de afinação constante, quanto mais afinação, mais elas se ajustam. Além disso tem o meio ambiente, se o violão está em um lugar quente, a madeira dilata e as cordas tensionam, se o violão está em um lugar frio, a madeira contrai e as cordas ficam um pouco menos tensionadas, se o lugar é úmido ou seco, enfim, todas as intempéries do tempo, assim é o meio ambiente das relações que nos cercam e a qualidade delas, e, principalmente, a nossa relação consigo! O trabalho da psicoterapia é afinar nossas demandas psíquicas com nossa autodeterminação, quais são nossas demandas conscientes, quais são inconscientes? Elas são expectativas da nossa idealização, ou elas são correspondência das expectativas alheias? Elas são produtos na nossa força nobre, ou elas são produtos da nossa fraqueza? Assim como dizia o filósofo Nietzsche. Não importa o preço das cordas, a necessidade de afinação é constante, assim como nossa vida emocional, a importância de afinar nossas emoções para soar em consonância com nosso verdadeiro self, e por consequência com o resto dessa orquestra social que é a vida. Já pensou o quanto você está afinado nas relações com quem você ama? Você está sendo você mesmo ou está atuando simplesmente para não ter que lidar com o fato de que as cordas já estão muito velhas para ficarem afinadas? Dependendo do jeito que tocamos o violão ele desafina e soa estranho, o ouvido denúncia, às vezes não foi por conta de uma discussão acalorada, nem por uma divergência, mas simplesmente porque não há mais relação! Mesmo com todo o zelo e cuidado a afinação é dissonante. Nesse momento, o mais difícil é aceitar que não há lugar que possa fazer o violão soar bem, que não é o lugar, é o arranjo, a relação! Por algum motivo ela ficou no tempo, e é no espaço analítico ou no setting terapêutico que encontramos o espaço apropriado para o tempo afinar as emoções e as ideias! E nesse caso, o que resta a fazer?! Se não trocar as cordas e continuar afinando.