Renan Sifroni

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Jogo narcísico

O Jogo Narcísico é quando um, ou o outro do par vincular, traz consigo dinâmicas mal adaptadas das relações edípicas não resolvidas. Uma das possibilidades é que aconteça o jogo do papel do martírio e culpígeno. Ele, ou ela, entram em uma dinâmica subjacente ao relacionamento, onde ambos jogam com papeis de outro tempo psíquico, ou como culpígeno, ou como vítima ( aquele que está se sacrificando pela relação ). Contudo, isso pode acarretar um jogo interminável, ainda mais se ambos sofrem com resquícios narcísicos ( a relação sou eu ). Se um do par começa a entender essa dinâmica subjacente, as idealizações são abaladas e tendem a cair. Essa denúncia pode levar o casal a um novo patamar de relação, assim como pode cair para o lado do caos, onde tende a definhar, pois a dinâmica subjacente ao vínculo do casal torna-se insustentável. É nesse momento que um psicólogo, ou um analista descortina as demandas, e faz com que o casal construa uma dinâmica mais autocrítica. O psicoterapeuta mostra ao casal, que o vínculo é o que mantém o desenvolvimento da relação, e a relação vai se significando a partir do vínculo. 

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O homem moderno está no meio do caminho entre o paraíso perdido e a terra prometida.

A ciência sempre desenhou a objetividade dos fatos para o desenvolvimento da verdade indubitável, e assim ela o fez com as ciências naturais, e também tenta fazer com as ciências humanas, porém as ciências humanas com suas intersubjetividades e subjetividades, além é claro de concepções metafísicas, acabam criando uma resistência epistemológica nos estudos dos processos mentais. Quando as ciências sociológica e antropológica começaram a questionar nossos costumes, crenças e tradições, criou-se naturalmente uma resistência social sobre esse ato reflexivo, obviamente era de se esperar, até porque nosso senso de identidade enquanto vínculos culturais estavam sendo questionados pelos ramos dessa ciência. A religião é naturalmente uma instituição que reforça nossas crenças e costumes, as verdades já estão postas, não há qualquer necessidade de repensar o mundo e suas representações no ambiente místico-religioso. O grande dilema acontece quando essa postura crítica começa a penetrar no âmbito subjetivo do sujeito, assim como empreendeu a psicanálise. A ciência virou resistência às novas concepções epistemológicas da psicanálise, a organização social com a derrubada das tradições, costumes e crenças criaram um desamparo humano, o desamparo que desdobra-se no chamado niilismo do filósofo Nietzsche, ou seja, o homem está entre o paraíso perdido e a terra prometida, no meio do caminho, dividido. A psicanálise , por sua vez, sistematiza epistemologicamente a divisão de um homem em consciente e inconsciente, onde demandas inconscientes determinam psiquicamente o comportamento e o modus operandi do sujeito. É o sujeito sendo sujeito dele mesmo. A necessidade de organizar o caos potencial social a partir da crítica sociológica e antropológica gerou um fator ansiogênico, e agora não somente no âmbito social, mas também no âmbito do intrapsíquico do sujeito, onde ele terá que se haver com a organização da sua própria autonomia emocional, e autodeterminação. Agora o indivíduo desamparado socialmente procura meios para encontrar o equilíbrio em sua própria ferida narcísica. A mesma casa que outrora era fundamentada por imperativos tradicionais, de  crenças e costumes, que asseguravam o equilíbrio emocional sem a menor hesitação. Dito isso, podemos concluir, que é desse contexto histórico que emerge o desespero humano, o medo irracional e o oportunismo das várias pseudociências. Há uma aflição compartilhada inconscientemente para a volta do paraíso perdido. A arcaica matriz narcísica fusional é o desejo do sujeito que não suporta ver a casa em ruínas, aquele que fecha as portas interiores, que deixa de resolver seus complexos. A espera pelo mundo na ânsia pela volta da onipotência infantil com a grande matriz maternal. Estamos sendo povoados por uma legião de crianças em corpos de homens e mulheres, e é pelo caos que vamos ter que estabelecer a cura, e a ordem.

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A psicanálise e a filosofia.

Qual a relação do filósofo (médico da cultura), e da psicanálise ( médico da psique), em relação ao sujeito? O filósofo está sempre em busca da verdade, na dinâmica do seu contexto histórico social. Assim como o homem da caverna de Platão, o filósofo é a pessoa que se eleva para o mundo das ideias para estar a serviço do pensar em direção à verdade, quer essa verdade esteja implicada no desenvolvimento da história humana, como sugere a nova revaloração dos valores por Nietzsche, quer ela esteja edificada num poço de verdades metafísicas indubitáveis, como a escola clássica da filosofia sugere. Por outro lado o analista, analisa o sujeito constituído pelos desejos e significações como uma realização da extensão desse grande outro. Esse sujeito comprometido com a ideia abstrata de verdade como conceito por vezes não coaduna com as dinâmicas experienciadas por ele mesmo, nem com seus desdobramentos. Esse é o sujeito faltante, que vive com as máscaras do jogo social, o jogo de esconde-esconde enquanto representação. Filosoficamente falando, e sabendo que esse ser humano mora em uma casa em meio ao céu e a terra, com sua base precária já comprometida. Caso esse mesmo sujeito deixe de empreender uma ligação simbólica das suas faltas com suas tendências neuróticas, ficará determinado inconscientemente num eterno retorno ao mesmo ( compulsão à repetição ). A filosofia, por sua vez, quer justamente uma libertação do homem social para ser o seu próprio destino, assim como o empreendimento psicanalítico, que leva o sujeito filosoficamente a uma aspiração, com as suas próprias dinâmicas históricas, para a solução de sua prisão mental. É essa busca e a compreensão desses fatores históricos que torna o homem mais inteiro, mas nunca inteiro, sempre mais inteiro, sendo que esse mundo de aparência é pensado e idealizado por ele mesmo. Aquele que ascende para o mundo das ideias para estar a serviço de um interminável devir, que é sempre recursivo, e sempre a serviço da sua autodeterminação.

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Ensaio sobre a frustração

Sabe, andei cogitando, em um primeiro momento, a ideia de que a frustração é onde nos elevamos além de nós mesmos, no sentido de pensar sobre o fenômeno em questão e absorver a queda, recompor-se mais realista. Já em no outro dia pensei que é uma volta à realidade, a queda dos ideias. Contudo se ainda fico frustrado com o outro, ou com o mundo, ou mesmo com as injustiças que ocorrem nele, parece-me um sinal, em última análise, que ainda é um desdobramento do exercício narcísico. Por que acho que isso faz sentido? Bom, quando o outro, na busca de sua individualidade, se presta para usar suas ferramentas para de alguma forma tentar fazer mais valia daquilo que ele se propõe, seja trabalho, seja status, ou o que quer que seja, traduz a agressividade que o animal humano precisa para a sobrevivência,  pulsão de vida! Se é perverso, ou não, se é neurose, ou não, não cabe o julgamento de valor fora de um setting de psicoterapia. O sujeito encontra, dentro da melhor opção que é a estrutura neurótica em que vivemos, o que ele pode construir. Logo, o que tem o outro haver com o fenômeno alheio, quando não lhe diz respeito? Sendo que a consequência dos atos é da pessoa que está se pondo a fazer isso? Quando indigno-me, percebo o quanto o outro atesta a minha frustração, o medo que eu tenho da queda dos ideais. Contudo, de fato, se eu já estivesse bem resolvido, ou mais inteiro, o movimento do outro não seria incômodo algum, as consequências seriam dele. Nesses momentos lembro da fala do meu analista, o mais importante é estar forte para bancar a queda das idealizações, pois as idealizações, em última análise, servem como uma ferramenta de projeção do futuro.

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Renan Sifroni

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A metáfora da afinação

A metáfora da afinação traz uma importante reflexão sobre nossas demandas psíquicas. Para quem toca um instrumento de corda, ou tem um conhecimento básico de música, a metáfora vai trazer um paralelo sobre nossas dificuldades enquanto sujeitos nas relações afetivas. A durabilidade das cordas do violão, no geral, é bem boa, e pode chegar a durar anos. Quando colocamos as cordas novas no violão elas ainda estão se ajustando ao instrumento, as cordas tem a necessidade de afinação constante, quanto mais afinação, mais elas se ajustam. Além disso tem o meio ambiente, se o violão está em um lugar quente, a madeira dilata e as cordas tensionam, se o violão está em um lugar frio, a madeira contrai e as cordas ficam um pouco menos tensionadas, se o lugar é úmido ou seco, enfim, todas as intempéries do tempo, assim é o meio ambiente das relações que nos cercam e a qualidade delas, e, principalmente, a nossa relação consigo! O trabalho da psicoterapia é afinar nossas demandas psíquicas com nossa autodeterminação, quais são nossas demandas conscientes, quais são inconscientes? Elas são expectativas da nossa idealização, ou elas são correspondência das expectativas alheias? Elas são produtos na nossa força nobre, ou elas são produtos da nossa fraqueza? Assim como dizia o filósofo Nietzsche. Não importa o preço das cordas, a necessidade de afinação é constante, assim como nossa vida emocional, a importância de afinar nossas emoções para soar em consonância com nosso verdadeiro self, e por consequência com o resto dessa orquestra social que é a vida. Já pensou o quanto você está afinado nas relações com quem você ama? Você está sendo você mesmo ou está atuando simplesmente para não ter que lidar com o fato de que as cordas já estão muito velhas para ficarem afinadas? Dependendo do jeito que tocamos o violão ele desafina e soa estranho, o ouvido denúncia, às vezes não foi por conta de uma discussão acalorada, nem por uma divergência, mas simplesmente porque não há mais relação! Mesmo com todo o zelo e cuidado a afinação é dissonante. Nesse momento, o mais difícil é aceitar que não há lugar que possa fazer o violão soar bem, que não é o lugar, é o arranjo, a relação! Por algum motivo ela ficou no tempo, e é no espaço analítico ou no setting terapêutico que encontramos o espaço apropriado para o tempo afinar as emoções e as ideias! E nesse caso, o que resta a fazer?! Se não trocar as cordas e continuar afinando.  

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Renan Sifroni

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Festas de final de ano, e os encontros no núcleo familiar

O final de ano pode ser um momento ansiogênico para muitas pessoas, por motivos diversos, mas aqui nesse post, gostaria de falar sobre os encontros do núcleo familiar. Principalmente nesses momentos, onde acontece os encontros das festa de família, a família que um dia foi sonhada pelos pais, foi desejada e idealizada. Você encontra um espaço lacunar (representação) no contexto do seu núcleo familiar, que possibilita a expressão da imagem que tu faz de si mesmo? Ou você se coloca entre parênteses para corresponder às expectativas alheias, do papel que esperam de ti? Você é você, ou você atua para manter a harmonia familiar?! Não que você tenha que ser de agora em diante um sincericida, e jogar tudo que sente no ventilador, mas se há um entendimento sobre a dinâmica subjacente ao fenômeno como ele se apresenta, tudo bem! Usar o falso self para preservar o teu verdadeiro é no mínimo usar o bom senso, é profilático. Mas se há um desconforto no qual você não entende da onde vem, e no qual você evita, é bem possível que você esteja mantendo um conflito subjacente ao que se apresenta. Identificar as dinâmicas da não lógica racional é o trabalho do analista, que busca no inconsciente os desejos ambivalentes. Por isso, ter um espaço de análise é tão importante para nos tornarmos mais inteiros e conscientes.

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